segunda-feira, 22 de abril de 2013

O olhar do turista



sobre o espanto e a comparação



Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima




Canal Häuser em Torcello, ilha em Veneza, Itália
Foto Clemensfranz [Wikimedia Commons]

“(...) eu deixo os homens para me tornar, novamente, turista, para encontrar a rainha Albermale e as pedras.
La reine Albermale ou le dernier touriste. Jean-Paul Sartre

Introdução
Todo gênero literário guarda as suas especificidades e apresenta os seustopoi particulares, e com a chamada narrativa de viagens ou narrativa viática isso não poderia ser diferente. Ora, nessa espécie de subgênero responsável por narrar os périplos de um viajante-escritor, os procedimentos literários mais comuns são a evocação do estereótipo e do exotismo, o dépaysement (1) que o viajante afirma sentir e o espanto diante do desconhecido; por outro lado, é o seu procedimento narrativo mais habitual a comparação do que se vê, e que é percebido como surpreendente, com o que já se conhece. E não estaríamos longe da verdade se afirmássemos que tudo isto é tanto artificial – afinal, não podemos esquecer que arte é artifício – quanto natural: um viajante que, por exemplo, não se espantasse com certos hábitos e paisagens desconhecidas seria blasé demais colocar-se em movimento e iniciar uma viagem.
O objetivo desse artigo é analisar em um texto de caráter viático um topospreciso, o espanto, e um procedimento literário particular aqui já citado, a comparação. O livro por nós escolhido para realizar a tarefa proposta é o romance escrito pelo filósofo francês Jean-Paul Sartre e intitulado La reine Albermale ou le dernier touriste; contudo, para a redação desse artigo utilizaremos apenas um breve trecho, um subcapítulo que tem como título apenas uma data, 27 outubro, indicando, certamente, que o texto foi escrito nesse dia – ou indicando que o autor quis que pensássemos assim, o que, para as nossas análises, faz bem pouca diferença. Convém acrescentar que esse livro jamais foi concluído e que foi publicado postumamente pela sua filha adotiva Arlette Alkaïm-Sartre, no ano de 1990 (2). Mas, de que trata esse romance inacabado? Para a fatura da sua narrativa Sartre criou uma personagem – na realidade um alter ego – que é um turista francês, um escritor-viajante que deambula pelas ruas das cidades italianas (Capri, Roma, Nápoles e Veneza) enquanto as descreve e realiza algumas considerações de ordem moral sobre os italianos, sobre a política e sobre o próprio caráter do turismo. (3)
Ora, ainda sobre a questão urbana, é mister afirmar que as cidades e a arquitetura têm um papel fundamental na construção dessas narrativas, e o filósofo britânico Bacon já fazia as suas recomendações aos viajantes, para que prestassem atenção na arquitetura das cidades: “(...) as igrejas e os mosteiros, com os monumentos e os documentos que por ventura conservem; as muralhas e fortificações das cidades e vilas; (...).” Esse curto extrato, que poderia ter sido escrito em um moderno guia de viagens, foi retirado de um ensaio chamado Da viagem, que foi publicado, pela primeira vez, no longínquo ano de 1597... Mas não devemos nos espantar ainda, uma vez que esse subgênero literário tem uma história que se confunde com a própria história de escritura.
Acreditamos que a análise desse subcapítulo será suficiente para os esclarecimentos sobre o “espanto” do turista francês diante de uma cultura que apenas muito vagamente se assemelha a sua (ambos os países, todavia, fazem parte do mesmo continente e têm uma história milenar de encontros e de guerras), e do procedimento da comparação, com o qual a personagem tenta compreender uma realidade que seria, de outro modo, quase incompreensível, e que, anteriormente, tinha sido motivo para espanto. Realizadas essas considerações iniciais, então, à tarefa.  
O espanto do turista
O turista francês, pretensamente no dia 27 de outubro (para os que gostam de precisão: Sartre escreveu o romance entre os anos de 1951 e 1952), atravessou a praça de São Marcos, em Veneza, para tomar o barco que o conduziria a Torcello aux Fondamenta Nuove (4), um endereço turístico nessa cidade tão turística que é Veneza. Contudo, uma vez no barco, a personagem, como todo bom turista, é tomada por um sentimento de estranheza e dedépaysement, uma vez que a classe social dos demais passageiros não era a sua – ele que era uma espécie de “burguês de esquerda” –, e ali quase todos eram operários voltando do trabalho: “Eu compreendo, todos esses homens acabaram de trabalhar. Eles vão para as suas casas para o fim de semana depois de terem comido as suas provisões na fábrica.” (5) A sua súbita compreensão do que significava aquele barco apinhado de venezianos veio acompanhada de uma – inevitável, ao menos para um turista – comparação: “O pequeno barco é um trem de subúrbio.” (6) Para um parisiense, aquele barco seria equivalente aos trens que, todas as noites, devolvem os operários aos seus subúrbios parisienses.
No entanto, as águas dos canais de Veneza não são o equivalente aos trilhos que sulcam parte do território francês, e isto é certo, porém, sabemos que a única arma do turista prevenido face ao perigo do desconhecido é a comparação: “Eu me retorno à água morta, esta que nos conduz. Ela é mais branca, porém, é mais reluzente que as águas dos canais do norte.” (7) Com essa comparação saímos subitamente do sul da Europa e somos lançados no espaço do norte, e não podemos deixar de pensar nos canais de Escaut, de Bruges e de Gent, na Bélgica. Ora, ali havia um canal, como no norte, havia a água, como no norte, mas a referência, para esse turista, não era Veneza, a referência eram os canais da Europa do norte, que, ainda segundo a personagem, não reluziam na pálida luz setentrional. Como se pode observar a partir da leitura desses poucos trechos, a comparação, como afirmamos no capítulo introdutório, é usual na literatura viática, e sobre esse procedimento escreveu a pesquisadora francesa Silvye Requemora:
A comparação do desconhecido de além mar com o conhecido europeu é também um procedimento clássico. Frank Lestrigant emprega a fórmula “mapa do mundo em palimpsesto” para qualificar esse fenômeno que consiste em comparar o desconhecido ao conhecido. O procedimento não concerne somente aos lugares e aos objetos, mas igualmente, aos modos observados; ele é recorrente, e mostra os limites da abertura do viajante à alteridade e o seu desejo de referencial. (8)
Mas a personagem, como veremos adiante, afirma não gostar nem um pouco de comparações... Mas, voltaremos a essa questão em tempo, nesse momento da análise é suficiente citar a narrativa de um evento que marcou o trajeto e que estruturou a narrativa desse subcapítulo: repentinamente, o turista francês percebe que um dos passageiros, um homem jovem, é tomado por convulsões violentas; e o seu mal foi prontamente diagnosticado pelos demais passageiros: tratava-se de um ataque epilético. A personagem, porém, mais se espanta com o comportamento dos demais passageiros que com as convulsões: “As pessoas ficam caladas. Eles olham. Não todos. Muitos ficaram sentados. Mas é um olhar estranho, sem escândalo nem surpresa: um olhar que mais reconhece do que vê.” (9) Aquele turista francês teria que atravessar muitas barreiras – sociais, culturais e históricas – para compreender o sentido daquele evento, que, para ele, era mais trágico do que o era para os demais passageiros. “Eu conheço o pânico das multidões burguesas quando alguém, no meio da rua, perde a sua dignidade e deixa de ser homem de direito divino para se tornar besta.” (10)
Ele constata que, no “norte”, diante de tal acontecimento as pessoas fingem não olhar (aquelas que são consideradas mais “humanas”), ou, então, olham com uma curiosidade sádica. Tratar-se-ia, nesse caso, de uma tragédia perfeitamente individual e vivida na solidão das ruas, mas fingir ignorar o sofrimento alheio não lhe parecia ser uma atitude reprovável, ou ainda, não seria a atitude mais reprovável, e ele comenta: “Entre nós, o melhor que um burguês pode fazer é ignorar e voltar a sua solidão, agir como se nada tivesse acontecido para que, mais tarde, o infeliz, se ele consegue retomar a sua dignidade, possa acreditar que ninguém percebeu a sua abjeção.” (11) Naquele barco, lotado de operários venezianos, essa tragédia é vivida de uma forma completamente diferente, pois se trata de um acontecimento da ordem do coletivo: “Mas aqui não tem essa solidão. A epilepsia pode atingir a todos.” Segundo o turista francês, há nisso certa resignação e certa renúncia: aceita-se essa doença como se aceita os acidentes de trabalho, a tuberculose dos filhos, e o cansaço; enfim, é algo que, simplesmente, acontece. (12)
Mas, como havíamos escrito acima, a esse turista não agradavam as comparações, como ele afirma: “Eu não gosto de comparações, no geral eu as acho insultantes, mas já que eu estou como turista direi que tive a mesma impressão singular – apenas mais forte – diante das telas de Duccio.” (13) Diante daquela cena, com o jovem convulsivo sendo amparado por outros, finalmente o turista francês permitiu-se uma genuína e confessada comparação. E neste caso, o motivo foi o espanto: “O que me choca naqueles que o seguravam, era o seu ócio triste.” (14) Aparentemente, face à exaltação da doença, um francês jamais faria esse gesto banal, quase cotidiano, como quem acalentasse uma criança doente, mas sem muito interesse  e pesar. Ao ousar vencer a sua solidão social para ter contato com um desconhecido, um francês, segundo a personagem, não teria, finalmente, um sentimento que poderia ser percebido como banal, ou um “ócio triste”.
Mais profundamente, a questão que se apresenta é a própria natureza do turismo, e, por conseqüência, dos turistas: poderia um turista, mesmo por um breve momento, deixar de ser um simples viajante e compreender verdadeiramente um acontecimento? Ora, o que é visto poderia, ao menos um dia, deixar de lhe escapar e, dessa maneira, deixar para trás a perpétua fuga do sentido diante do particular dos acontecimentos? A personagem tem essa sensação ao ser abordado por um “deles”, uma mulher que lhe pergunta pelo seu local de destino: “Você vai descer em Torcello? É lá.” Mas esse turista francês não tem muitas ilusões sobre o que ele representava, naquele momento, e, sobretudo, naquela viagem:
É uma maneira de me fazer sentir um pouco – no momento – um deles. No entanto, é claro que é ao estrangeiro de óculos, ao turista, que a mulher dá essa informação: ‘Ele só pode descer em Torcello,’ Eis o que ela pensou. Mas é como turista que estou, por um momento, ligado a eles. (15)
Ele não tem ilusões porque um burguês estrangeiro não pode se ligar a operários italianos senão como, exatamente, um turista. E esse viajante é o outro, o outro que compreende pouco e muitas vezes imprecisamente, ou que compreende apenas, como afirmou a personagem, no “insulto da comparação”. Dito de outra maneira, e ainda pensando no trecho citado: o outro que não pode conhecer a vida “deles” – a rotina de um operário italiano – e que do seu espaço só conhece os locais turísticos. Um bom turista deve seguir o secular conselho de Bacon, e visitar as cidades e os seus monumentos, e a operária veneziana sabia muito bem disso: “Ele só pode descer em Torcello”, eis como imaginou o turista estrangeiro o opróbrio de que se achava vítima por parte dos venezianos.
Mas tudo isto é apenas um breve resumo do romance que Sartre concebeu e não concluiu e um pequeno retrato desse “último turista”. E, apenas para concluir, mais uma breve análise sobre como a personagem serviu-se da comparação, e que, ao, comparar, acabou referindo-se a si mesmo e a sua cultura. Essa questão já estava presente na narrativa das convulsões, uma vez que a pintura de Duccio guarda mais relações com a cultura erudita e internacional do turista francês do que com o cotidiano de um operário veneziano. Essa questão, a saber, a quase impossibilidade de compreender uma cultura estrangeira foi brilhantemente formulada pelo pesquisador francês Daniel-Henri Pageaux nesses termos: “Eu quero dizer o Outro (por imperiosas e complexas razões), e em dizendo o Outro eu o nego e me digo eu mesmo.” (16) Em outras palavras, a alteridade cultural permanece um limite quase intransponível, e, ao descrevê-la, o viajante acaba por fazer um retrato de si mesmo e revelar a sua cultura. Trata-se da emergência dos “limites da abertura do viajante à alteridade”, tal como nos escreveu Requemora.        
E essa última comparação que faremos é a imagem que o turista francês possuía das mulheres italianas, que seriam “tão diferentes das francesas”: “As mulheres italianas mantiveram o natural de Sthendal.” (17) Ora, como o Sartre-autor teria criado a imagem de “natural” das mulheres italianas? Em princípio, podemos pensar que essa imagem foi evocada pela leitura dos romances “italianos” de Sthendal, como La chartreuse de Parme e Croniques italiennes. Isto significaria que esse “natural” seria somente uma construção cultural – que é, na realidade, mais francesa que italiana – e a frase da personagem indica que as mulheres italianas pareceram “naturais” a Sthendal, ou, ao menos, mais “naturais” que as francesas. Nesse caso, a personagem apenas fazia eco a um som emitido no século XIX, isto é, estaria reproduzindo, ou, repetindo, a imagem que certo romancista em dado período histórico teria criado.
Mas, aparentemente, ele sabia desse fato, desse hiato que separa, às vezes radicalmente, o turista de uma cultura visitada, e afirmou: “Quando eu vejo um homem estrito de cabelos penteados com austeridade e que representa oennui distinto dos fortes, homem de ação em repouso, eu penso que é um Francês. Nove vezes em dez eu acerto. Vistos da Itália, como nós parecemos nórdicos.” (18) O turista diz conhecer – e reconhecer – os Franceses, porque ele mesmo é Francês, e é sempre mais fácil reconhecer a sua própria cultura; todavia, para conhecer o “outro estrangeiro” um turista parece não possuir nada melhor que a “comparação insultuosa” ou, como nos casos já citados de Sthendal e de Duccio, a nobre criação artística.
Últimas considerações
Sartre criou uma personagem que, em um barco que atravessava os canais de Veneza, assiste a um evento que, de certa maneira, faz com que o turismo deixe de ser uma simples atividade de lazer para ganhar uma dimensão quase epistemológica, ou seja, tenta-se responder à questão – ou, ao menos refletir-la – do que se pode conhecer do chamado “real” quando o referencial já não mais existe. Vimos que o espanto é o arauto da “ausência de referências”, e que um turista possui um repertório de sensações, de imagens e de hábitos ao qual ele recorre quando, diante do desconhecido, tenta fazer um re-conhecimento. É assim, ainda sobre Duccio, o que afirma a personagem: “Como se nas telas naïves de Duccio estivesse uma humanidade católica e a sua acolhida fosse tão ampla que eu, turista francês e mais rico que eles, não pudesse ser excluído.” (19)
Mas toda comparação só pode ser aproximativa, e os homens e as cidades são inevitavelmente únicos e particulares, assim como os canais de Veneza não reproduzem os canais do norte da Europa, de águas menos “reluzentes”; e uma pintura do século XIV, insistimos, não pode emular uma cena ocorrida seis séculos depois. O turista reconhece a exatidão desse fato, e sabe que estará sempre solitário no seu espanto: “Mas isto não é o campo, é água condenada a ser terra, e também não é uma ilha, é uma coisa flutuante e inominável, um velho barco condenado que faz água por todos os lados e que vai naufragar.” (20) É com essa bela descrição de Veneza que o turista desiste das comparações – “não é o campo” – e que tenta, finalmente, compreender essa cidade, que não é nem água nem terra, mas um velho barco que um dia naufragará.  Contudo, essa cidade descrita não é a Veneza dos seus moradores ou a dos seus trabalhadores, trata-se de uma cidade pessoal e intransferível, criada por um turista francês que a compreende a partir da sua realidade e da sua cultura, e que, no final, será objeto de muitos adjetivos, mas que será sempre, assim como a própria personagem do romance, “inominável”.
notas
1
Dépaysement significa estar fora da sua região ou país, uma vez que o termo francês pays tem os dois significados. Uma tradução possível para o Português seria “desorientação”.

2
As razões para o abandono desse projeto literário ainda não foram elucidadas pelos seus biógrafos. A esse respeito, ver: a) CONTAT, Michel.Autopsie d'un livre inexistant : La Reine Albemarle ou le Dernier touriste. Em: Item [On line] Disponível em http://www.item.ens.fr/index.php?id=172593; b) COHEN-SOLAL, Annie. Sartre 1905-1980. Paris: Gallimard, 1999; c) LÉVY, Bernard-Henri. O século de Sartre. Trad.: Jorge Bastos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.

3
Esse personagem, ao longo desse romance inacabado, jamais será nomeado, e persistirá sendo somente um anônimo turista francês.

4
Em “Italiano” no original.

5
SARTRE, Jean-Paul. La reine Albermale ou le dernier touriste. Paris: Gallimard, 1991, p. 146. Tradução nossa do Francês para o Português.

6
Idem. Ibidem.

7
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 147. Tradução nossa do Francês para o Português.

8
REQUEMORA, Sylvie. L’espace dans la littérature de voyages. Em: Études Littéraires, v. 34, nº 1-2, 2002, p. 260. Tradução nossa do Francês para o Português.

9
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 149. Tradução nossa do Francês para o Português.

10
Idem. Ibidem.

11
Idem. Ibidem.

12
Idem. Ibidem.

13
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 150. Tradução nossa do Francês para o Português.

14
Idem. Ibidem.

15
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 152. Tradução nossa do Francês para o Português.

16
PAGEAUX, Daniel-Henri. Recherche sur l’Imagologia: de l’Histoire culturelle à Poétique. Em: Revista de Filologia Fransesa. Madrid: Universidade Complutense, 1995, p. 141. Tradução nossa do Francês para o Português.

17
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 159. Tradução nossa do Francês para o Português.

18
Idem. Ibidem.

19
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 151. Tradução nossa do Francês para o Português.

20
SARTRE, Jean-Paul. Op. Cit., p. 153. Tradução nossa do Francês para o Português.

bibliografia complementar
CONTAT, Michel; RYBALKA, Michel. Les écrits de Sartre. Paris: Gallimard, 1970.
FERNANDEZ, Bernard. L’homme et le Voyage, une connaissance éprouvée sous le signe de la rencontre.  Em: R. Barbier (Org.). Education et sagesse: la quête du sens. Paris: Albin Michel, 2001.
sobre o autor
Adson Cristiano Bozzi Ramatis Lima, arquiteto e urbanista, Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Espírito Santo, Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, autor do livro: Arquitessitura; três ensaios transitando entre a filosofia, a literatura e arquitetura. Professor Assistente da Universidade Estadual de Maringá, Departamento de Arquitetura e Urbanismo.



Algo existe




Emily Dickinson
Tradução de Lúcia Olinto


Algo existe num dia de verão,
No lento apagar de suas chamas,
Que me impele a ser solene.
Algo, num meio-dia de verão,
Uma fundura - um azul - uma fragrância,
Que o êxtase transcende.
Há, também, numa noite de verão,
Algo tão brilhante e arrebatador
Que só para ver aplaudo -
E escondo minha face inquisidora
Receando que um encanto assim tão trêmulo
E sutil, de mim se escape

Bisutería barata




Collar roto,
tus lágrimas dispersas

por el suelo ya frío
del recuerdo.


Little Red Ridinfhood



São Jorge

Chagas abertas, 
Sagrado Coração todo amor e bondade,
 o sangue do meu Senhor Jesus Cristo, 
no corpo meu se derrame hoje e sempre.
Eu andarei vestido e armado, com as armas de São Jorge. 

Para que meus inimigos tendo pés não me alcancem, 
tendo mãos não me peguem, 
tendo olhos não me exerguem e nem pensamentos eles possam ter para me fazerem mal.
Armas de fogo o meu corpo não o alcançarão,

 facas e lanças se quebrarão sem ao meu corpo chegar, 
cordas e correntes se arrebentarão sem o meu corpo amarrarem.
Jesus Cristome proteja e me defenda com o poder 

de sua Santa e Divina Graça, a Virgem Maria de Nazaré, me cubra com o seu Sagrado e divino manto, 
me protegendo em todas minhas dores e aflições, 
e Deus com a sua Divina Misericórdia e grande poder, 
seja meu defensor, 
contra as maldades de perseguições dos meus inimigos, 
e o glorioso São Jorge, em nome de Deus, 
 em nome de Maria de Nazaré, 
e em nome da falange do Divino Espírito Santo,
 me estenda o seu escudo e as suas poderosas anulas, 
defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, 
do poder dos meus inimigos carnais e espirituais 
e de todas sua más influências, 
e que debaixo das patas de seu fiel ginete, 
meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós, 
sem se atreverema ter um olhar sequer que me possa prejudicar.
Assim seja com o poder de Deus e de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.
Amém.


Chegará um dia no qual os homens conhecerão o íntimo dos animais; e nesse dia, um crime contra um animal será considerado crime contra a humanidade."




Leonardo da Vinci


sábado, 9 de março de 2013

quarta-feira, 6 de março de 2013

Mas para sorrir, superando o desespero, é preciso ser criativo.

I`m Nobody!


Eu não sou Ninguém! E tu, quem és?
Tu és Ninguém Também?
Então formamos um par? Mas... cuidado!
Não fales, porque se souberem... Que estrago!
Como é chato ser Alguém!
Ser tão famoso como um Sapo
Que passa o mês de junho todo a coaxar seu próprio nome
Diante de um embasbacado Charco!


Emily Dickinson

LIVRO DO DESEJO




Não consigo superar as colinas
O sistema foi abaixo
Vivo de comprimidos
Coisa que agradeço a D--s

Segui o trajecto
Do caos à arte
Desejo o cavalo
Depressão a carruagem

Naveguei como um cisne
Afundei-me como uma rocha
Mas o tempo passou há muito
Pelas minhas reservas de riso

A minha página era demasiado 
branca
A minha tinta era demasiado fina
O dia não quis escrever
Aquilo que a noite rabiscara

O meu animal uiva
O meu anjo aborreceu-se
Mas não me é permitida
Uma réstia de remorso

Pois alguém há-de utilizar
Aquilo que eu não soube ser
O meu coração será dela
De uma forma impessoal

Ela pisará o caminho
Perceberá a minha intenção
A minha vontade partida em duas
E a liberdade pelo meio

Por menos de um segundo
As nossas vidas colidirão
O interminável suspenso
A porta de par em par

Então ela há-de nascer
Para alguém como tu
O que nunca ninguém fez
Ela continuará a fazer

Sei que ela vem aí
Sei que ela irá olhar
E esse é o desejo
E este é o livro

Leonard Cohen - Livro do Desejo (edições quasi)
tradução de Vasco Gato


Sylvia Plath


As Pedras
Esta é a cidade onde os homens se consertam.
Repouso num grande leito.
O raso e azul círculo celeste
Voou como o chapéu de uma boneca
Quando abandonei a luz. Entrei
No estômago da indiferença, o armário mudo.
O maior dos almofarizes diminuiu-me.
Tornei-me num seixo imóvel.
As pedras da barriga estavam tranquilas,
A lápide (2) serena, nada a perturbava.
Só a abertura da boca (3) sibilava,
Grilo inoportuno
Numa pedreira de silêncios.
As pessoas da cidade ouviram-no.
Procuraram as pedras, taciturnas e separadas,
A abertura da boca gritava as localizações.
Ébria como um feto
Sugo a polpa das trevas.
Os tubos de alimentação abraçam-me. Esponjas beijam-me e retiram-me os líquenes.
O joalheiro manuseia o cinzel, descerra
E força a abertura de um olho de pedra.
Isto é o pós-inferno: vejo a luz.
Um vento abre a câmara
Do ouvido, esse velho preocupado.
Água apazigua o lábio de sílex,
E a luz do dia derrama a sua monotonia na parede.
Os enxertadores estão alegres,
Aquecendo as tenazes, içando os delicados martelos.
Uma corrente agita os fios
Volt após volt. Pontos remendam-me as fissuras.
Um operário passa trazendo um torso róseo.
Corações enchem os armazéns.
Esta é a cidade das peças sobresselentes.
As minhas pernas e braços enfaixados emanam um doce cheiro a borracha.
Aqui eles recompõem cabeças ou qualquer membro.
Às sextas, as crianças vêm
Trocar os seus ganchos por mãos.
Os mortos deixam olhos para outros.
O amor é o uniforme da minha enfermeira calva.
O amor é o osso e tendão da minha praga.
O vaso, reconstruído, abriga
A rosa esquiva.
Dez dedos moldam uma taça para sombras.
Os meus remendos fazem comichão. Não se pode fazer nada, incomoda, mas
Ficarei como nova.
(2) Trocadilho: head-stone significa lápide e Plath também insinua, “cabeça de pedra”.
(3) Literalmente, é a abertura da boca numa máscara (mouth-hole).

Valari

Queria compartilhar 
com todo mundo que eu gosto 
mas como não posso 

compartilho aqui.

domingo, 3 de março de 2013

"She's my fave
Undressing in thesun
Return to sea - bye
Forgetting everyone
Eleven high
Ride a wave"

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

fotografia

Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.

Mudo apenas os verbos e às vezes nem mudo.
Mudo os substantivos e às vezes nem mudo.
Se digo ainda que é mais feliz quem descobre o que não
presta do que quem descobre ouro –
Penso que ainda assim não serei atingido pela bobagem.
Apenas eu não tenho polimentos de ancião.



manoel de barros

até o fim

Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
"inda" garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão , eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, a minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim ?
Eu já nem lembro "pronde" mesmo que eu vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu estava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou

a mão que acalenta o berço


o que tem olhos e não vê


o bom menino com cabelo penteado


a linda boneca de cêra que todos elogiam


algumas me lembram seres humanos que conheço e isso não deixa de ser bizarro.


sobrevivendo entre os mortos


leveza sob a água


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Quem Sabe um Dia



Quem Sabe um Dia
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois  

Mario Quintana