quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Paisagem impressionista deste verão

CRUZ E SOUSA




Acrobata da Dor
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.



Cruz e Sousa

DE - S - CON - FORMIDADES!

Eu sou o Batman!

narciso invertido

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os diários de Tarkovski


A seguir, alguns trechos dos diários de Tarkovski (1970-1986), recentemente publicados no Brasil pela editora Realizações, em tradução direta do russo de Alexey Lázarev.


10 de maio de 1970. "Em 24 de abril, 1970, compramos uma casa em Miasnoye. Exatamente aquela que queríamos. Agora não tenho medo de nada. Se não me derem trabalho, vou ficar na casa de campo, criar porcos, gansos, cuidar de horta, e não dar a mínima para eles! Aos poucos, colocaremos a casa e o terreno em ordem e será uma grande casa de campo. De pedra. Parece que ao redor só há gente boa. Colocaremos colmeias. Teremos mel. Seria bom conseguir um jipe. Então, tudo estará em ordem. Agora tenho que ganhar mais dinheiro para terminar as obras da casa." (p. 9-10)

4 de fevereiro de 1974. "Estranha constatação: Quando se assiste a um espetáculo do chamado 'teatro do absurdo' (Beckett, Ionesco), surge uma impressão do naturalismo. Em todo caso, da perfeita verdade. Aqui está a solução do problema da verdade da arte, que é inseparável de um gênero específico. O realismo em termos de teatro é a falsidade dos filmes, e vice-versa. No cinema, o texto, os diálogos, como na vida, é refratado em todos os componentes da obram menos as próprias palavras. As palavras não significam nada, as palavras são vento. Eu não acredito no caráter 'multiestratificado' do cinema. A polifonia fílmica não nasce de uma multiplicidade de estratos, mas de um enriquecimento progressivo plano a plano, por sua sucessão e sua acumulação. E não só só isso. A polissemia da imagem reside em sua antureza intrínseca." (p. 113)

9 de julho de 1979. "Deus, que sonho bonito que eu tive! Trata-se de um dos dois sonhos que me perseguem por toda a minha vida e que não vinha tendo desde muito, muito tempo. Ele se passa em algum lugar no verão, não muito longe da casa (não me lembro dela). Tem sol, e uma leve brisa. Eu vou passear: mas vou, de alguma forma, às pressas, como se tivesse um propósito. Mas vou indo por um caminho pelo qual nunca tinha andado. E logo me encontro em um lugar formoso, maravilhoso, simplesmente paradisíaco. Flores de todos os tipos, arbustos em abundância, uma vegetação toda verde. De longe, ouvem-se alguns gritos, como se pessoas rolassem na grama, lutando e gemendo. Mas, a se julgar pelos gritos, é uma luta de vida ou morte. Eu vou pela maravilhosa estrada da floresta e, depois da curva no campo, logo ao lado da estrada, vejo crianças lutando. Crianças rústicas, do campo. À beira da estrada está sentada uma mulher jovem, que está fazendo algo. Eu digo a ela: 'Eles vão se matar'.
'Sentiu pena de quê? Será que sentiu pena pela menina ou algo assim? Vá, vá, não faz mal, não vão se matar'. Ou algo assim. Então, uma mulher idosa sai dos arbustos e joga, na grande saia da jovem, grandes frutos que não estão bem maduros. Eu continuo meu caminho. O passeio dura muito pouco; olho à direita e paro, para não cair no barranco. Em baixo há um rio largo, de águas límpidas, bonito, com uma doce ondulação. Ele é bordejado por ervas e, na outra margem, uma floresta de coníferas acolhedora me convida a entrar. Que paz, que silêncio! Como foi que nunca conheci este lugar! Eu deito na grama perto do barranco. Diante dos meus olhos (ao longo da estrada), existe a erva fresca, um prado todo coberto de flores azuis, como de linho; no fundo há uma sombra escuro depois do prado, há duas flores enormes que parecem estar perto dos meus olhos e são parecidas com as violetas que crescem na minha janela. Um velho abeto seco está na beira da floresta; e ele se destaca, mas não estraga a paisagem. Um pouco para a direita, por entre as árvores, não muito visível, aparece uma parede redonda de alguma antiga construção, ou de uma torre histórica. Ali reina o silêncio, o sol, as flores, o vento, o frio e o sossego! Estou deitado, olho para essa paisagem incrível, e sinto na minha alma a felicidade recém-descoberta!" (p. 224-226)

10 de janeiro de 1986. "Eu estou no hospital em Paris. Faz cinco dias. Fizeram as primeiras sessões (de cinco dias) de rádio e quimioterapia. As impressões são horrorosas. Em duas ou três semanas faremos ainda sessões durante mais cinco dias e, em seguida, mais quatro vezes. No que dará isso, ninguém sabe" (p. 609)

15 de dezembro de 1986. "O tempo todo estou na cama, sem poder me sentar, e tenho até mesmo dificuldade de defecar. Dor nas costas e na pélvis (nervos). As pernas não se movem. Leon não entende por que essa dor. Eu acho que é a antiga crise ciática, agravada pela química. Fazem quimioterapia. Ambos os braços doem muito. São como nevralgias. Alguns solavancos. Estou muito fraco. Vou morrer? Existe uma opção - entrar no hospital e ficar monitorado por médicos que me tratavam em Sarcelles. Hamlet! Se puder me livrar agora: 1. das dores nas costas, e depois, 2. nos braços, poderiafalar sobre uma recuperação depois da quimioterapia. Mas agora não tenho forças para nada. Aí está o problema. O negativo, cortado em muitos lugares, eu não sei por quê..." (p. 643)


Em 16 de dezembro, Tarkovski foi levado para a clínica Hartman, em Nuits-sur-Seine, onde morreu na noite de 28 para 29 de dezembro.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O paraíso nunca mais



Esta anta nadando ao lado da canoa no rio Peixoto de Azevedo é a prova de que o paraíso existiu e eu tive o privilégio de passar por ele. Durou pouco tempo mas eu vi. A anta mostrou a tromba a um metro do barco que eu viajava e a foto, quadro cheio, foi feita com uma lente normal. Ela não fugia espantada, apenas resolveu cruzar o rio ao lado da nossa canoa. Era carne de caça importante para alimentar os quase quarenta homens da expedição, mas todo mundo ficou assistindo imóvel a elegância das passadas do bicho naquelas águas cristalinas do rio Peixoto de Azevedo. Durante os quase três anos de expedição me senti como se estivesse assistindo aqueles encontros da bicharada reunida dentro da mata exuberante, num grande falatório como nos livros infantis.
beira dos igarapés amanheciam “picados” de rastro de pacas, veados, porcos do mato e, de vez em quando, no meio daquela pisação uma pata enorme provocava um suspiro de admiração e preocupação. Era a mão de uma onça que tinha vindo beber água. Rastro fresco de quem tinha acabado de chegar.

Muitas vezes tive a impressão de estar sendo cercado pelos bandos enormes, incontáveis, de macacos pregos que apareciam a nossa volta enquanto caminhavamos. Jacus e mutuns sobrevoavam o acampamento no amanhecer e a nossa trilha sonora de todos os finais de tarde eram as araras gritando até a última luz do dia.


O extremo norte do Brasil com seus encantos e desencantos



O jáu que estes dois índios Kaiabí estão segurando deve pesar uns 30 quilos e foi o primeiro peixe de couro pescado no Rio Peixoto de Azevedo pelo pessoal da expedição de contado dos índios Kranhacãrore chefiada pelos irmãos Villas Boas. Foi fisgado no final da tarde do dia em que a expedição encontrou o rio, quase um ano depois de ter partido a pé da Serra do Caximbo. Na chegada quase não se via o rio, de barranco alto, ficava escondido por trás da mata densa. Uma enorme árvore foi derrubada dentro da água. Caminhando pelo tronco pudemos ter uma idéia do rio, tomar banho e pescar. O índio Kanízio, cozinheiro da expedição, que esta a esquerda na foto, amarrou um pedaço de pano no anzol de uma linhada de mão e arremessava recolhendo de forma que o pano viesse chacoalhando na flôr da água. Piranhas enormes e pretas atacavam a isca na superfície.

Assim que escureceu o índio Tariri espetou um rabo de piranha no anzol e lançou rio abaixo. Não demorou muito e ele pegou este jaú, que o puxou para dentro d’água, ele voltou para cima do tronco com ajuda de outros índios com a linha na mão e o jaú fisgado, lutou, caiu no rio novamente, foi uma festa, a festa de chegada ao rio. Até aquele momento a expedição só se alimentava de carne de caça e o charque que raramente era lançado de avião. A comida desta primeira noite foi um banquete inesquecível. Todas as piranhas pescadas foram cozidas, tomamos o caldo, comemos com farinha.