quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Paisagem impressionista deste verão

CRUZ E SOUSA




Acrobata da Dor
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta ...

Pedem-se bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente,
ri! Coração, tristíssimo palhaço.



Cruz e Sousa

DE - S - CON - FORMIDADES!

Eu sou o Batman!

narciso invertido

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os diários de Tarkovski


A seguir, alguns trechos dos diários de Tarkovski (1970-1986), recentemente publicados no Brasil pela editora Realizações, em tradução direta do russo de Alexey Lázarev.


10 de maio de 1970. "Em 24 de abril, 1970, compramos uma casa em Miasnoye. Exatamente aquela que queríamos. Agora não tenho medo de nada. Se não me derem trabalho, vou ficar na casa de campo, criar porcos, gansos, cuidar de horta, e não dar a mínima para eles! Aos poucos, colocaremos a casa e o terreno em ordem e será uma grande casa de campo. De pedra. Parece que ao redor só há gente boa. Colocaremos colmeias. Teremos mel. Seria bom conseguir um jipe. Então, tudo estará em ordem. Agora tenho que ganhar mais dinheiro para terminar as obras da casa." (p. 9-10)

4 de fevereiro de 1974. "Estranha constatação: Quando se assiste a um espetáculo do chamado 'teatro do absurdo' (Beckett, Ionesco), surge uma impressão do naturalismo. Em todo caso, da perfeita verdade. Aqui está a solução do problema da verdade da arte, que é inseparável de um gênero específico. O realismo em termos de teatro é a falsidade dos filmes, e vice-versa. No cinema, o texto, os diálogos, como na vida, é refratado em todos os componentes da obram menos as próprias palavras. As palavras não significam nada, as palavras são vento. Eu não acredito no caráter 'multiestratificado' do cinema. A polifonia fílmica não nasce de uma multiplicidade de estratos, mas de um enriquecimento progressivo plano a plano, por sua sucessão e sua acumulação. E não só só isso. A polissemia da imagem reside em sua antureza intrínseca." (p. 113)

9 de julho de 1979. "Deus, que sonho bonito que eu tive! Trata-se de um dos dois sonhos que me perseguem por toda a minha vida e que não vinha tendo desde muito, muito tempo. Ele se passa em algum lugar no verão, não muito longe da casa (não me lembro dela). Tem sol, e uma leve brisa. Eu vou passear: mas vou, de alguma forma, às pressas, como se tivesse um propósito. Mas vou indo por um caminho pelo qual nunca tinha andado. E logo me encontro em um lugar formoso, maravilhoso, simplesmente paradisíaco. Flores de todos os tipos, arbustos em abundância, uma vegetação toda verde. De longe, ouvem-se alguns gritos, como se pessoas rolassem na grama, lutando e gemendo. Mas, a se julgar pelos gritos, é uma luta de vida ou morte. Eu vou pela maravilhosa estrada da floresta e, depois da curva no campo, logo ao lado da estrada, vejo crianças lutando. Crianças rústicas, do campo. À beira da estrada está sentada uma mulher jovem, que está fazendo algo. Eu digo a ela: 'Eles vão se matar'.
'Sentiu pena de quê? Será que sentiu pena pela menina ou algo assim? Vá, vá, não faz mal, não vão se matar'. Ou algo assim. Então, uma mulher idosa sai dos arbustos e joga, na grande saia da jovem, grandes frutos que não estão bem maduros. Eu continuo meu caminho. O passeio dura muito pouco; olho à direita e paro, para não cair no barranco. Em baixo há um rio largo, de águas límpidas, bonito, com uma doce ondulação. Ele é bordejado por ervas e, na outra margem, uma floresta de coníferas acolhedora me convida a entrar. Que paz, que silêncio! Como foi que nunca conheci este lugar! Eu deito na grama perto do barranco. Diante dos meus olhos (ao longo da estrada), existe a erva fresca, um prado todo coberto de flores azuis, como de linho; no fundo há uma sombra escuro depois do prado, há duas flores enormes que parecem estar perto dos meus olhos e são parecidas com as violetas que crescem na minha janela. Um velho abeto seco está na beira da floresta; e ele se destaca, mas não estraga a paisagem. Um pouco para a direita, por entre as árvores, não muito visível, aparece uma parede redonda de alguma antiga construção, ou de uma torre histórica. Ali reina o silêncio, o sol, as flores, o vento, o frio e o sossego! Estou deitado, olho para essa paisagem incrível, e sinto na minha alma a felicidade recém-descoberta!" (p. 224-226)

10 de janeiro de 1986. "Eu estou no hospital em Paris. Faz cinco dias. Fizeram as primeiras sessões (de cinco dias) de rádio e quimioterapia. As impressões são horrorosas. Em duas ou três semanas faremos ainda sessões durante mais cinco dias e, em seguida, mais quatro vezes. No que dará isso, ninguém sabe" (p. 609)

15 de dezembro de 1986. "O tempo todo estou na cama, sem poder me sentar, e tenho até mesmo dificuldade de defecar. Dor nas costas e na pélvis (nervos). As pernas não se movem. Leon não entende por que essa dor. Eu acho que é a antiga crise ciática, agravada pela química. Fazem quimioterapia. Ambos os braços doem muito. São como nevralgias. Alguns solavancos. Estou muito fraco. Vou morrer? Existe uma opção - entrar no hospital e ficar monitorado por médicos que me tratavam em Sarcelles. Hamlet! Se puder me livrar agora: 1. das dores nas costas, e depois, 2. nos braços, poderiafalar sobre uma recuperação depois da quimioterapia. Mas agora não tenho forças para nada. Aí está o problema. O negativo, cortado em muitos lugares, eu não sei por quê..." (p. 643)


Em 16 de dezembro, Tarkovski foi levado para a clínica Hartman, em Nuits-sur-Seine, onde morreu na noite de 28 para 29 de dezembro.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

O paraíso nunca mais



Esta anta nadando ao lado da canoa no rio Peixoto de Azevedo é a prova de que o paraíso existiu e eu tive o privilégio de passar por ele. Durou pouco tempo mas eu vi. A anta mostrou a tromba a um metro do barco que eu viajava e a foto, quadro cheio, foi feita com uma lente normal. Ela não fugia espantada, apenas resolveu cruzar o rio ao lado da nossa canoa. Era carne de caça importante para alimentar os quase quarenta homens da expedição, mas todo mundo ficou assistindo imóvel a elegância das passadas do bicho naquelas águas cristalinas do rio Peixoto de Azevedo. Durante os quase três anos de expedição me senti como se estivesse assistindo aqueles encontros da bicharada reunida dentro da mata exuberante, num grande falatório como nos livros infantis.
beira dos igarapés amanheciam “picados” de rastro de pacas, veados, porcos do mato e, de vez em quando, no meio daquela pisação uma pata enorme provocava um suspiro de admiração e preocupação. Era a mão de uma onça que tinha vindo beber água. Rastro fresco de quem tinha acabado de chegar.

Muitas vezes tive a impressão de estar sendo cercado pelos bandos enormes, incontáveis, de macacos pregos que apareciam a nossa volta enquanto caminhavamos. Jacus e mutuns sobrevoavam o acampamento no amanhecer e a nossa trilha sonora de todos os finais de tarde eram as araras gritando até a última luz do dia.


O extremo norte do Brasil com seus encantos e desencantos



O jáu que estes dois índios Kaiabí estão segurando deve pesar uns 30 quilos e foi o primeiro peixe de couro pescado no Rio Peixoto de Azevedo pelo pessoal da expedição de contado dos índios Kranhacãrore chefiada pelos irmãos Villas Boas. Foi fisgado no final da tarde do dia em que a expedição encontrou o rio, quase um ano depois de ter partido a pé da Serra do Caximbo. Na chegada quase não se via o rio, de barranco alto, ficava escondido por trás da mata densa. Uma enorme árvore foi derrubada dentro da água. Caminhando pelo tronco pudemos ter uma idéia do rio, tomar banho e pescar. O índio Kanízio, cozinheiro da expedição, que esta a esquerda na foto, amarrou um pedaço de pano no anzol de uma linhada de mão e arremessava recolhendo de forma que o pano viesse chacoalhando na flôr da água. Piranhas enormes e pretas atacavam a isca na superfície.

Assim que escureceu o índio Tariri espetou um rabo de piranha no anzol e lançou rio abaixo. Não demorou muito e ele pegou este jaú, que o puxou para dentro d’água, ele voltou para cima do tronco com ajuda de outros índios com a linha na mão e o jaú fisgado, lutou, caiu no rio novamente, foi uma festa, a festa de chegada ao rio. Até aquele momento a expedição só se alimentava de carne de caça e o charque que raramente era lançado de avião. A comida desta primeira noite foi um banquete inesquecível. Todas as piranhas pescadas foram cozidas, tomamos o caldo, comemos com farinha.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Na praia, sozinho, à noite



Na praia, sozinho, à noite,
Quando a velha mãe balança para a frente e para trás,
[entoando sua canção vigorosa,
Quando assisto à brilhante estrela que cintila,
[reflito sobre a chave dos universos e sobre o futuro.

Uma vasta similitude engrena todas as coisas,
Todas as esferas, as desenvolvidas, as mirradas, as pequenas,
[as grandes, os sóis, as luas, os planetas,
Todas as distâncias de lugares, não importando quão longínquos,
Todas as distâncias do tempo, todas as formas inanimadas,
Todas as almas, todos os corpos viventes embora tão diferentes,
[ou de mundos diferentes,
Todos os processos gasosos, aquáticos, vegetais, minerais,
[os peixes, as criaturas,
Todas as nações, cores, barbarismos, civilizações, línguas,
Todas as identidades que existiram ou possam existir
[neste globo ou em qualquer globo,
Todas as vidas e mortes, todo o passado, o presente, o futuro,
Essa vasta similitude os abarca, e sempre os abarcou,
E há de abarcá-los para sempre e solidamente envolvê-los e contê-los.

(de Folhas de Relva,
livros: Filhos de Adão, Cálamo e À Deriva do Mar)

Walt Whitman (1819-1892)

Mont Saint Michel

Mas lembre-se ... a vida sente a si mesma.

Enigmas

Me tendes perguntado que fia o crustáceo entre
as suas patas de ouro e vos respondo: O mar o sabe.
Me dizeis o que espera a ascídia em seu sino transparente?
Que espera? Eu vos digo, espera como vós, o tempo.
Me perguntais a quem alcança o abraço da alga Macrocustis?
Indagai-o, indagai-o a certa hora, em certo mar que eu conheço.

Sem dúvida me perguntareis pelo marfim maldito
do narval, para que eu vos responda
de que modo o unicórnio marinho agoniza arpoado.
Me perguntais talvez pelas plumas alcionárias que tremem
nas puras origens da maré astral?
E sobre a construção cristalina do pólipo tereis
embaralhado, sem dúvida
uma pergunta a mais, debulhando-a agora?
Quereis saber a elétrica matéria das puas do fundo?
A armada estalactita que caminha se quebrando?
O anzol do peixe pescador, a música estendida
na profundidade como um fio na água?

Eu quero dizer-vos que isto o sabe o mar,
que a vida em suas arcas
é vasta como a areia, inumerável e pura
e entre as uvas sanguinárias o tempo poliu
a dureza duma pétala, a luz da medusa
e debulhou o ramo de suas fibras corais
de uma cornucópia de nácar infinito.

Eu não sou mais do que a rede vazia que mostra
olhos humanos, mortos naquelas trevas,
dedos acostumados ao triângulo, medidas
de um tímido hemisfério de laranja.

Andei como vós escarvando
a estrela interminável,
e na minha rede, à noite, acordei nu,
única presa, peixe encerrado no vento.


(de Canto Geral, parte XIV: O Grande Oceano)

Pablo Neruda (1904-1973)

sábado, 24 de maio de 2014


Livro que faz um panorama geral dos estudos da Ayahuasca desde sua descoberta no mundo ocidental no século XIX até o início deste século. Organizado por Ralph Metzner, pesquisador de longa data na área de drogas psicodélicas tendo feito parte do grupo de estudos de Timothy Leary nos anos 60. Lembrando que algumas pesquisas feitas ainda nos anos 90 já são consideradas ultrapassadas, como a que se refere ao uso da Ayahuasca por pessoas que fazem uso de medicamentos antidepressivos. Segundo o pesquisador Jace C. Callaway isso desencadearia uma síndrome serotoninérgica que levaria à morte. No entanto, não existe nenhum relato sobre algo parecido, e levando em conta a quantidade de pessoas que fazem uso de tais medicamentos e a expansão do uso da Ayahuasca nos últimos anos, o fato já haveria de ter ocorrido, como comenta o psiquiatra Luís Fernando Tófoli no vídeo abaixo.



sábado, 17 de maio de 2014

A ABP - Associação Brasileira de Psiquiatria - publicou um manifesto contrário à legalização da maconha. O que se sabe é que essa opinião não é unânime e sim representa apenas uma parcela dos psiquiatras que são simpáticos à atual direção da associação, mas que no entanto agem como se representassem toda a classe. Essa diretoria parece estar fechada a outras opiniões. O que vemos na página deles no Facebook é a insistência em causar verdadeiro pânico sobre os malefícios da droga e assim justificando sua opinião. Alguns vídeos são postados contendo não mais que 4 minutos, como se esse fosse o tempo suficiente para mostrar que os doutores estão cobertos de razão. Um verdadeiro desserviço.


Abaixo um artigo publicado pela Folha de S. Paulo com o psiquiatra Luís Fernando Tófoli, que tem claramente opinião contrária a ABP.

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2014/01/1399951-luis-fernando-tofoli-enxugando-gelo-e-sangue.shtml

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Un chant d'amour - Jean Genet (1950)  

Adelaide - ou o que sobrou dela - do nosso amigo Peu.


A liberdade de ver os outros

 

Um dos escritores mais admirados de sua geração, o americano David Foster Wallace se suicidou no mês passado, aos 46 anos, enforcando-se. Este texto foi tirado de seu discurso de paraninfo para formandos do Kenyon College, há três anos
por David Foster Wallace

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

- Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

- Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio. O ponto central da história dos peixes é que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida. Enunciada dessa -forma, a frase soa como uma platitude - mas
é fato que, nas trincheiras do dia-a-dia da existência adulta, lugares comuns banais podem adquirir uma importância de vida ou morte.

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras "virtudes". Essa não é uma questão de virtude - trata-se de optar por tentar alterar minha configuração padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser.

Num ambiente de excelência acadêmica, cabe a pergunta: quanto do esforço em adequar a nossa configuração padrão exige de sabedoria ou de intelecto? A pergunta é capciosa. O risco maior de uma formação acadêmica - pelo menos no meu caso - é que ela reforça a tendência a intelectualizar demais as questões, a se perder em argumentos abstratos, em vez de simplesmente prestar atenção ao que está ocorrendo bem na minha frente.

Estou certo de que vocês já perceberam o quanto é difícil permanecer alerta e atento, em vez de hipnotizado pelo constante monólogo que travamos em nossas cabeças. Só vinte anos depois da minha formatura vim a entender que o surrado clichê de "ensinar os alunos como pensar" é, na verdade, uma simplificação de uma idéia bem mais profunda e séria. "Aprender a pensar" significa aprender como exercer algum controle sobre como e o que cada um pensa. Significa ter plena consciência do que escolher como alvo de atenção e pensamento. Se vocês não conseguirem fazer esse tipo de escolha na vida adulta, estarão totalmente à deriva.

Lembrem o velho clichê: "A mente é um excelente servo, mas um senhorio terrível." Como tantos clichês, também esse soa inconvincente e sem graça. Mas ele expressa uma grande e terrível verdade. Não é coincidência que adultos que se suicidam com armas de fogo quase sempre o façam com um tiro na cabeça. Só que, no fundo, a maioria desses suicidas já estava morta muito antes de apertar o gatilho. Acredito que a essência de uma educação na área de humanas, eliminadas todas as bobagens e patacoadas que vêm junto, deveria contemplar o seguinte ensinamento: como percorrer uma confortável, próspera e respeitável vida adulta sem já estar morto, inconsciente, escravizado pela nossa configuração padrão - a de sermos singularmente, completamente, imperialmente sós.

Isso também parece outra hipérbole, mais uma abstração oca. Sejamos concretos então. O fato cru é que vocês, graduandos, ainda não têm a mais vaga idéia do significado real do que seja viver um dia após o outro. Existem grandes nacos da vida adulta sobre os quais ninguém fala em discursos de formatura. Um desses nacos envolve tédio, rotina e frustração mesquinha.

Vou dar um exemplo prosaico imaginando um dia qualquer do futuro. Você acordou de manhã, foi para seu prestigiado emprego, suou a camisa por nove ou dez horas e, ao final do dia, está cansado, estressado, e tudo que deseja é chegar em casa, comer um bom prato de comida, talvez relaxar por umas horas, e depois ir para cama, porque terá de acordar cedo e fazer tudo de novo. Mas aí lembra que não tem comida na geladeira. Você não teve tempo de fazer compras naquela semana, e agora precisa entrar no carro e ir ao supermercado. Nesse final de dia, o trânsito está uma lástima.

Quando você finalmente chega lá, o supermercado está lotado, horrivelmente iluminado com lâmpadas fluorescentes e impregnado de uma música ambiente de matar. É o último lugar do mundo onde você gostaria de estar, mas não dá para entrar e sair rapidinho: é preciso percorrer todos aqueles corredores superiluminados para encontrar o que procura, e manobrar seu carrinho de compras de rodinhas emperradas entre todas aquelas outras pessoas cansadas e apressadas com seus próprios carrinhos de compras. E, claro, há também aqueles idosos que não saem da frente, e as pessoas desnorteadas, e os adolescentes hiperativos que bloqueiam o corredor, e você tem que ranger os dentes, tentar ser educado, e pedir licença para que o deixem passar. Por fim, com todos os suprimentos no carrinho, percebe que, como não há caixas suficientes funcionando, a fila é imensa, o que é absurdo e irritante, mas você não pode descarregar toda a fúria na pobre da caixa que está à beira de um ataque de nervos.

De qualquer modo, você acaba chegando à caixa, paga por sua comida e espera até que o cheque ou o cartão seja autenticado pela máquina, e depois ouve um "boa noite, volte sempre" numa voz que tem o som absoluto da morte. Na volta para casa, o trânsito está lento, pesado etc. e tal.

É num momento corriqueiro e desprezível como esse que emerge a questão fundamental da escolha. O engarrafamento, os corredores lotados e as longas filas no supermercado me dão tempo de pensar. Se eu não tomar uma decisão consciente sobre como pensar a situação, ficarei irritado cada vez que for comprar comida, porque minha configuração padrão me leva a pensar que situações assim dizem respeito a mim, a minha fome, minha fadiga, meu desejo de chegar logo em casa. Parecerá sempre que as outras pessoas não passam de estorvos. E quem são elas, aliás? Quão repulsiva é a maioria, quão bovinas, e inexpressivas e desumanas parecem ser as da fila da caixa, quão enervantes e rudes as que falam alto nos celulares.

Também posso passar o tempo no congestionamento zangado e indignado com todas essas vans, e utilitários e caminhões enormes e estúpidos, bloqueando as pistas, queimando seus imensos tanques de gasolina, egoístas e perdulários. Posso me aborrecer com os adesivos patrióticos ou religiosos, que sempre parecem estar nos automóveis mais potentes, dirigidos pelos motoristas mais feios, desatenciosos e agressivos, que costumam falar no celular enquanto fecham os outros, só para avançar uns 20 metros idiotas no engarrafamento. Ou posso me deter sobre como os filhos dos nossos filhos nos desprezarão por desperdiçarmos todo o combustível do futuro, e provavelmente estragarmos o clima, e quão mal-acostumados e estúpidos e repugnantes todos nós somos, e como tudo isso é simplesmente pavoroso etc. e tal.

Se opto conscientemente por seguir essa linha de pensamento, ótimo, muitos de nós somos assim - só que pensar dessa maneira tende a ser tão automático que sequer precisa ser uma opção. Ela deriva da minha configuração padrão.

Mas existem outras formas de pensar. Posso, por exemplo, me forçar a aceitar a possibilidade de que os outros na fila do supermercado estão tão entediados e frustrados quanto eu, e, no cômputo geral, algumas dessas pessoas provavelmente têm vidas bem mais difíceis, tediosas ou dolorosas do que eu.

Fazer isso é difícil, requer força de vontade e empenho mental. Se vocês forem como eu, alguns dias não conseguirão fazê-lo, ou simplesmente não estarão a fim. Mas, na maioria dos dias, se estiverem atentos o bastante para escolher, poderão preferir olhar melhor para essa mulher gorducha, inexpressiva e estressada que acabou de berrar com a filhinha na fila da caixa. Talvez ela não seja habitualmente assim. Talvez ela tenha passado as três últimas noites em claro, segurando a mão do marido que está morrendo. Ou talvez essa mulher seja a funcionária mal remunerada do Departamento de Trânsito que, ontem mesmo, por meio de um pequeno gesto de bondade burocrática, ajudou algum conhecido seu a resolver um problema insolúvel de documentação.

Claro que nada disso é provável, mas tampouco é impossível. Tudo depende do que vocês queiram levar em conta. Se estiverem automaticamente convictos de conhecerem toda a realidade, vocês, assim como eu, não levarão em conta possibilidades que não sejam inúteis e irritantes. Mas, se vocês aprenderam como pensar, saberão que têm outras opções. Está ao alcance de vocês vivenciarem uma situação "inferno do consumidor" não apenas como significativa, mas como iluminada pela mesma força que acendeu as estrelas.

Relevem o tom aparentemente místico. A única coisa verdadeira, com V maiúsculo, é que vocês precisam decidir conscientemente o que, na vida, tem significado e o que não tem.

Na trincheira do dia-a-dia, não há lugar para o ateísmo. Não existe algo como "não venerar". Todo mundo venera. A única opção que temos é decidir o que venerar. E o motivo para escolhermos algum tipo de Deus ou ente espiritual para venerar - seja Jesus Cristo, Alá ou Jeová, ou algum conjunto inviolável de princípios éticos - é que todo outro objeto de veneração te engolirá vivo. Quem venerar o dinheiro e extrair dos bens materiais o sentido de sua vida nunca achará que tem o suficiente. Aquele que venerar seu próprio corpo e beleza, e o fato de ser sexy, sempre se sentirá feio - e quando o tempo e a idade começarem a se manifestar, morrerá um milhão de mortes antes de ser efetivamente enterrado.

No fundo, sabemos de tudo isso, que está no coração de mitos, provérbios, clichês, epigramas e parábolas. Ao venerar o poder, você se sentirá fraco e amedrontado, e precisará de ainda mais poder sobre os outros para afastar o medo. Venerando o intelecto, sendo visto como inteligente, acabará se sentindo burro, um farsante na iminência de ser desmascarado. E assim por diante.

O insidioso dessas formas de veneração não está em serem pecaminosas - e sim em serem inconscientes. São o tipo de veneração em direção à qual você vai se acomodando quase que por gravidade, dia após dia. Você se torna mais seletivo em relação ao que quer ver, ao que valorizar, sem ter plena consciência de que está fazendo uma escolha.

O mundo jamais o desencorajará de operar na configuração padrão, porque o mundo dos homens, do dinheiro e do poder segue sua marcha alimentado pelo medo, pelo desprezo e pela veneração que cada um faz de si mesmo. A nossa cultura consegue canalizar essas forças de modo a produzir riqueza, conforto e liberdade pessoal. Ela nos dá a liberdade de sermos senhores de minúsculos reinados individuais, do tamanho de nossas caveiras, onde reinamos sozinhos.

Esse tipo de liberdade tem méritos. Mas existem outros tipos de liberdade. Sobre a liberdade mais preciosa, vocês pouco ouvirão no grande mundo adulto movido a sucesso e exibicionismo. A liberdade verdadeira envolve atenção, consciência, disciplina, esforço e capacidade de efetivamente se importar com os outros - no cotidiano, de forma trivial, talvez medíocre, e certamente pouco excitante. Essa é a liberdade real. A alternativa é a torturante sensação de ter tido e perdido alguma coisa infinita.

Pensem de tudo isso o que quiserem. Mas não descartem o que ouviram como um sermão cheio de certezas. Nada disso envolve moralidade, religião ou dogma. Nem questões grandiosas sobre a vida depois da morte. A verdade com V maiúsculo diz respeito à vida antes da morte. Diz respeito a chegar aos 30 anos, ou talvez aos 50, sem querer dar um tiro na própria cabeça. Diz respeito à consciência - consciência de que o real e o essencial estão escondidos na obviedade ao nosso redor - daquilo que devemos lembrar, repetindo sempre: "Isto é água, isto é água."

É extremamente difícil lembrar disso, e permanecer consciente e vivo, um dia depois do outro.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-25/despedida/a-liberdade-de-ver-os-outros